Blog dos Jovens Cientistas e Investigadores


Projecto Jovens Cientistas e Investigadores, 2007 – Por Vanessa Dias
Janeiro 21, 2009, 3:14 pm
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A minha participação na edição dos Jovens Cientistas e Investigadores 2007 foi fruto de um acaso, que acabou por ser muito feliz. Tomei conhecimento desta iniciativa ao passar pelo balcão da papelaria da escola secundária onde estudei e onde estava um único exemplar sobrante do boletim de inscrição do concurso.

O título, Jovens Cientistas e Investigadores, despertou-me desde logo a curiosidade. Decidi levar o boletim comigo, para ler sobre o que se tratava – um “concurso” nacional, para jovens que gostassem de desenvolver trabalhos de pesquisa e conhecimento, em diversas áreas.

Apesar de estar num curso científico e tendo sido essa também uma das razões pelas quais participei, sempre gostei muito da arte literária e vi assim uma oportunidade de aliar dois dos meus enormes gostos: a escrita e a área das ciências médicas (uma das muitas temáticas em concurso).

O tema surgiu ali de imediato – teria que ser sobre a Obesidade, uma doença que me afectou pessoalmente e sobre a qual recolhia informação há algum tempo, para além de já ter definido na altura que a minha futura profissão teria que ser obrigatoriamente ligada à Dietética e Nutrição.

Com o entusiasmo de poder falar sobre algo muito importante para mim e a noção de que era preciso alertar a população para esta doença “assintomática”, a ideia de participar foi ganhando asas na minha cabeça e guardei assim o boletim de inscrição. A categoria era evidente: Ciências Médicas. O título bastante indiscutível: Obesidade, a Epidemia do Século XIX.

No entanto, com a azáfama e o ritmo do 12º ano, fui deixando a ideia de lado e o tempo passar. Escrevi e redigi o meu trabalho três dias antes do prazo expirar, mas era tão importante e cativante para mim que dediquei os dias e as noites a escrevê-lo – era como se fosse uma necessidade, a vontade de passar a minha mensagem de que nós “Somos aquilo que comemos”.

Consciente de que o resultado não estava tão bom como se tivesse dedicado largas semanas a realizá-lo e apesar de o tema ser-me muito familiar, não tinha expectativas de maior. Fiquei muito surpresa por ter conseguido ficar entre os 57 finalistas a concurso na Mostra de Ciência, uma vez que era a primeira vez que participava num evento deste género.

Foi então necessário realizar um poster que serviria como face do meu trabalho. Como era a primeira vez que estava naquela situação, socorri-me da minha professora coordenadora, Prof. Helena Caetano, que me revira o texto e me ensinou o que era um “poster científico”. Por contratempos e falta de experiência, o poster ficou bastante rudimentar.

Tudo era novo quando pisei, no dia de montagem da exposição, o Museu da Electricidade – as pessoas, os professores, as dezenas de “cientistas” que por lá deambulavam, com posters magníficos e bem acabados, maquetas e engenhocas fantásticas. Confesso que não vi grande hipótese de que se considerasse o meu trabalho admirável ou relevante, pois para mim todos aqueles circuitos eléctricos, plantas, minerais e rochas com pegadas de dinossáurios eram muito mais importantes do que um trabalho sobre “gordos”. Contudo, estava bastante contente por ter chegado tão longe, com um trabalho feito “em cima do cotovelo”, mas sem dúvida com muita dedicação da minha parte.

Atrapalhada e com pouco à vontade, passei a maior parte do tempo junto à minha banca, no primeiro e grande parte do segundo dia. Aos poucos, alguns dos “jovens cientistas” quiseram saber mais sobre o meu trabalho e foi então que percebi que o mais importante de tudo era trocar conhecimentos e impressões, uns com os outros. Dei uma vista de olhos a quase todos os trabalhos e, cada vez mais, via as minhas hipóteses dissiparem-se no ar, mas tal não me entristecia, pois sempre encarara a minha participação como uma “experiência de iniciação”.

O primeiro sintoma de nervosismo surgiu durante a entrevista com os júris. Embora não precisasse de decorar nada, porque tudo fazia parte de mim, a expectativa sobre as perguntas que me seriam apontadas deixava-me com o coração nas mãos – falar em público era algo que eu ainda não dominava e tão pouco queria fazer “má figura”.

A minha júri, a Prof. Dr.ª Raquel Seruca, surpreendeu-me bastante com o seu à vontade e com o seu interesse pelo meu trabalho. Foi então que me disse que não queria saber a teoria de nada, apenas queria que eu falasse sobre o porquê daquele projecto. De certa forma, já esperava aquela pergunta e sabia que não poderia fugir com outra resposta senão a de que tinha sido obesa mórbida e que graças a uma boa alimentação e exercício físico estava, naquele momento, com um peso bastante saudável (embora não quisesse expor a minha história e tendo tido o cuidado de abordar o tema de forma imparcial no trabalho escrito).

A minha posição era assim, unicamente, a de fazer passar o alerta sobre a Obesidade, tratá-la como uma doença e não apenas como “gordura” em excesso. Mais importante ainda: era necessário tratar a Obesidade de forma racional e por métodos naturais (equilíbrio energético e exercício físico).

Rapidamente, percebi então que contar a minha história, as minhas estratégias, as minhas soluções e os meus resultados teria sido uma benesse ao meu trabalho, bem como teria fortificado a minha mensagem. Teria tido mais pontos se tivesse dito que o “experimento” era eu mesma e que a base tinham sido os meus cerca de 50 kg perdidos.

Embora soubesse que muitas pessoas me consideravam um modelo a seguir e procuravam-me a pedir ajuda, a questão da imparcialidade e da privacidade estavam accionados na minha cabeça e, por isso, não gostava de tornar público algo que certamente marcara para sempre a minha vida.

O discurso da Prof. Dr.ª Raquel Seruca deixara-me de certa forma muito contente comigo mesma e fez-me ver que o meu trabalho tinha a sua relevância. Após as primeiras entrevistas e durante o almoço, pude mostrar o que seria a minha “parte experimental” do trabalho, quando a Prof. Seruca veio ter comigo e pediu-me para que lhe “fizesse” o prato. Tentei respeitar as regras e as estratégias.

Metade do prato deveria ser destinado à salada ou aos vegetais. Como não sobrara nada, tentei improvisar com fruta de variadíssimas cores, algo que eu mesma adoptara. Optei pelas carnes frias menos gordurosas e tentei criar um prato apetecível aos olhos, sobretudo, mas pouco calórico.

Penso que me saí bem e era a prova que faltava, a cereja em cima do bolo. Quando terminámos, achei estranho, pois tinha acabado de “escolher” o almoço da minha júri e falado sobre as opções alimentares que eu achava mais correctas, dentro do que havia disponível. Foi algo que me marcou bastante e que ainda hoje recordo com um grande carinho.

O meu poster mal impresso, desbotado e a falta da “parte experimental” não me deixavam contudo pensar que teria alguma hipótese de obter algum reconhecimento. A minha coordenadora, que me acompanhava incansavelmente, confidenciou-me que tinha a sensação de que eu iria receber uma Menção Honrosa, o que eu não conseguia acreditar 100%, embora ficasse extremamente contente – tantos trabalhos, tantos engenhos e tantas mentes brilhantes naquele espaço que para mim uma Menção Honrosa seria o auge!

No grande dia final, na Cerimónia de Entrega dos Prémios, aguardei os resultados com o meu interior totalmente electrificado, nas cadeirinhas dispostas em filas. Quando durante um dos discursos se falou em “dedicação pessoal”, senti de imediato os olhos de quem me acompanhava sobre mim. O meu projecto era de facto um trabalho de grande dedicação pessoal, porque todos os esforços se baseavam numa vontade imensa de defender todos aqueles que sofriam de várias formas, com os seus quilos a mais, e numa paixão enorme pela Nutrição.

Os nomes foram sendo revelados. Primeiro as Menções Honrosas. Uma, duas, três… e o meu nome não constou. A minha esperança sumiu quando terminaram as Menções Honrosas; mas senti que tinha valido muito participar naquele evento.

Após as Menções Honrosas, vieram os Prémios. Quarto lugar. Terceiro lugar… e o coração parou. O meu nome soou algures e só sabia que supostamente deveria levantar-me. Lembro-me de dizer algo como “Então, Prof. Helena, vamos?”, com uma naturalidade tal que nunca pensei que fosse possível. Talvez soubesse, lá no fundo, que aquilo que eu fizera tinha um significado especial, tocava mais ao ser-humano do que as leis gravitacionais. Recebi assim o 3º Prémio.

Sem saber ainda que as surpresas não ficavam por ali, voltei a sentar-me junto dos meus pais, que sempre me acompanharam e que ficaram realmente emocionados e contentes pelo meu feito. Seguiram-se o 2º e 1º Prémios.

Sentada na minha cadeirinha e com a cabeça a mil à hora, não voltei a ouvir mais nada, até que o meu nome e o do meu projecto voltaram a ser novamente proferidos – tinha acabado de ser seleccionada para uma das participações internacionais, a International Science and Engineering Fair, a decorrer nos EUA. Era o impossível a ser tornado possível, mais uma vez!

Aquele evento tinha acabado de abrir muitas portas, especialmente naquilo que eu considerava ser “a minha missão”. Tornara-me confiante na qualidade do meu trabalho e naquilo que eram as minhas capacidades. Propiciara-me novas oportunidades, como a minha participação na INTEL ISEF 2008, em Maio de 2008, experiência esta igualmente especial, que me permitiu ter um contacto directo com um dos países onde o número de obesos é extremamente alarmante.

A minha participação nos Jovens Cientistas e Investigadores foi sem dúvida o início de um currículo que me permitiu hoje ser reconhecida, não só por aqueles que acompanharam o meu processo e os meus trabalhos, mas também por outras entidades, como o Instituto de Investigação Científica Tropical que me concedeu uma Bolsa de Integração na Investigação, na área “Crescimento e Nutrição”.

Desde então que tento estar sempre envolvida em projectos ligados às Ciências da Nutrição, desenvolvo estudos autónomos sobre os comportamentos alimentares e colaboro ainda em alguns eventos ligados à alimentação, sobretudo relacionados com os jovens, contanto o meu caso de obesidade mórbida e alertando para os perigos e soluções desta doença.

Além de todo o desenvolvimento das minhas capacidades e conhecimentos, o Jovens Cientistas e Investigadores permitiu-me crescer quer academica, quer pessoalmente, uma vez que passei a acreditar nas minhas skills e competências, enquanto jovem “cientista e investigadora” – considero mesmo que a maior “lição” desta experiência foi perceber que mesmo sem grandes meios e sem os apoios que muitos dos outros jovens por vezes têm (escolas, universidades, laboratórios…), o que conta e o mais importante, para se ter um trabalho relevante, são a nossa dedicação e o amor que depositamos no nosso projecto.

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